domingo, 31 de maio de 2015

É bom ler.

Reproduzo a seguir texto publicado no O Povo on line. Relatando as dificuldades de atendimento no SUS, mas também sua vitórias. É bom ler.

Artigo. Ocupar o SUS. A missão (Sandra Helena de Souza - Professora de Filosofia da Unifor)

Imagine acordar e descobrir-se em estado gravíssimo precisando de intensivos cuidados médicos. Acrescente o detalhe: você não faz ideia de onde está, ninguém lhe conhece e para culminar a desgraça você também não sabe quem ou o que é: está completamente amnésico(a). Pergunta-se: como quer que seja o sistema de saúde nesse lugar desconhecido onde agora está na iminência de perder a vida?

Com alguma liberdade lhes estou sugerindo um experimento filosófico conhecido como ‘véu da ignorância’ proposto por John Rawls, filósofo americano do século XX, na tentativa de estabelecer as bases de uma sociedade justa. Sem saber a posição original que cada um de nós ocupará na sociedade somos instados a escolher as estruturas sociais, econômicas e políticas básicas do mundo em que queremos viver.
 
Há dois meses quis a vida que eu vivenciasse o cotidiano do ‘mal afamado’ Sistema Único de Saúde percorrendo todos os seus círculos, desde o inferno da superlotação até o paraíso do atendimento humanizado e infra-estrutura bastante razoável. Sim, aqui em Fortaleza, mais especialmente entre a UPA da Praia do Futuro e o HGF.
 
Acometido de derrame pleural causado por insuficiência renal crônica, meu pai diabético, deu entrada em estado gravíssimo na UPA numa tarde de domingo. Atendido imediatamente por conta do resultado da triagem, em três horas já havia a decisão para levá-lo ao hospital o que aconteceu já nos primeiros minutos da segunda.
 
Revezamo-nos, a família, nos corredores do HGF, nas Observações 1 e 2, sem privilégio algum, durante 10 dias até que subimos ao paraíso, o leito 505/4 na enfermaria do quinto andar, onde ainda permaneceríamos por um mês e três dias.
 
Uma experiência pedagógica-política impagável. Trata-se aqui de um relato fenomenológico-pessoal, mas a percepção foi partilhada com acompanhantes e outros pacientes, dada a natureza mesma de minha alma investigativa. Durante o tempo de aflição assistimos o resultado incontestável das políticas de humanização por que passou o SUS nos últimos anos. Maqueiros, técnicos e enfermeiras, jovens médicos residentes, todos, com pouca exceção, absolutamente prestativos, com uma sobrecarga desumana de trabalho, mas dedicados no extremo do profissionalismo. Não percebi falta grave de material nem de alimentação. Vi pessoas morrerem e pessoas quase ressuscitarem. E meu velho pai, duas pneumonias hospitalares depois, receber alta.
 
Vivi o sofrimento intenso e o cuidado que deve acompanhá-lo em situações limite. Vi o melhor da humanidade: tecnologia a serviço do afeto solidário.
 
Quando levo aos alunos o experimento rawlsiano costumo propor que imaginem escolas, prisões e hospitais. E o resultado é sempre o mesmo: ‘ah, professora, isso aí é utopia’. Pois lhes digo que entre nós a utopia já é parte da realidade, resultado de lutas históricas nas quais foi imperativo o engajamento coletivo. Sempre ameaçado, o SUS é patrimônio gigantesco que exige combate sem tréguas para aperfeiçoá-lo, sob qualquer governo. Mesmo.
 
Bom motivo pra bater panelas. Lúcido ou não, você agradecerá depois. À luta companheir@s.